terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entrevista com Christophobia

Em meio aos ventos escaldantes do Norte Central paranaense, emerge uma banda tão ardente quanto o clima da notável cidade de Arapongas — famosa por ter suas ruas nomeadas com nome de pássaros —, estou falando de Christophobia. Aterrissando nas chamas agressivas do Black Metal, a banda formada em 2013 cria um som cru, com influências do Punk e Thrash, acalorado por vocais ásperos, linhas de baixo vigorosas e bateria marcante.

Do latim Christos (Cristo) e phobos (aversão), o nome da banda pode evocar a ideia de ódio gratuito a todos os cristãos, no entanto, a banda se aprofunda na insatisfação por tudo aquilo que oprime e impõe regras e valores hipócritas às pessoas. A religião é apenas uma das ferramentas que o ser humano usa para injetar suas próprias crenças e seus valores morais sobre os outros. Assim, a banda aborda todas as questões que segregam e causam, de fato, o verdadeiro caos no mundo. Há críticas diretas, filosofia e experiências pessoais nas letras. Passando por várias formações no decorrer dos anos, hoje a banda se estabiliza com Renato Nascimento na bateria e vocais, João Martioro nas guitarras e vocais e Vini Cestari no baixo e vocais, três músicos com uma vasta bagagem na arte sonora.
Nós, do Discografias do Metal Negro, tivemos a honra de bater um papo com esse trio e disponibilizamos aqui para vocês a entrevista na íntegra.


1. Vocês três são músicos com uma estrada sólida na cena musical. Conte-nos sobre como a música chegou na vida de vocês e a importância que ela tem.

Vini: Meu pai sempre ouviu muita música, então cresci imerso em um caldo cultural que ia de rock clássico ao flashback. Em paralelo a isso, meu avô era um baterista de banda de baile aposentado, e me ensinou desde cedo – criança curiosa que era – os fundamentos básicos. Uma das poucas memórias de infância que tenho é meu pai chegando em casa com um jogo que mudaria minha vida: Guitar Hero 3. O jogo me fisgou para o mundo das cordas desde a primeira jogatina. Meu avô, então, me deu um violão velho, e o resto é história. Música tem sido, desde então, minha maior catarse e sublimação. Por vezes, acho mais fácil me expressar através da música do que por palavras.
Martioro: Valeu, Lúgubre. Primeiramente, obrigado pelo espaço e pela dedicação ao underground. Seu trabalho é louvável, e é uma honra estar aqui, nesse espaço, pra falar um pouco sobre música e sobre underground.
Minha história com a música é um pouco confusa. Na minha família não havia músicos próximos, minha irmã é cantora, mas desenvolveu após eu já estar no meio underground. Meus pais não têm nenhum contato com o fazer musical. Como meu pai é filho único, veio dos meus tios avós a influência da música, especialmente da música sertaneja raiz, e de um primo de segundo grau, que é um músico extraordinário de Orlândia/SP, o Dito Viola.
Nesse tempo nasce o desejo por aprender um instrumento, mas só aos 13 anos que eu consigo comprar minha primeira guitarra. Então fui me desenvolvendo aos poucos, depois veio o baixo, depois o violão de nylon; com ele o interesse pela música clássica, mas especialmente pelo samba-canção de Cartola, de Nelson Sargento, de Adoniran Barbosa, Bezerra da Silva, e em especial pelos mestres do violão 7 cordas, como o Dino 7 Cordas, Paulão 7 Cordas, Garoto e, claro, Guinha e Toninho Horta no 6 cordas.
Desde então a música tem sido parte estrutural e estruturante na minha vida, que permeia todas as minhas relações interpessoais, me aproxima de pessoas incríveis e se torna ferramenta pra tangibilizar minha arte.
Renato: Primeiramente, obrigado pelo espaço! O meu caso é parecido com o do Vini, com a influência vindo diretamente de meus pais, que gostam de rock em geral, além de minha mãe ter sido violonista, tocando nas paróquias da vida quando mais jovem, e meus pais sempre terem fomentado a vontade minha e de meus irmãos de termos uma banda, nos ajudando nos idos de 2000/2001 a termos nossos instrumentos. Eu acabei ficando com a bateria (risos), mas mais tarde meu irmão, que também integrou o Christophobia, me ensinou a tocar baixo e guitarra. Sobre a importância da música em minha vida, resumo dizendo que a música é tudo para mim.

2. Voltando ao início, como surgiu Christophobia, e qual o propósito por detrás da banda?

Vini: Não tenho propriedade para falar do surgimento da banda, já que estou nela há pouco mais de um ano, apenas. Quanto ao propósito, creio que a faixa “Ódio Perpétuo” fale por si: “Derrubamos as fajutas escaras de mentiras milenares, apostrofando lendas e jogando ao ar cinzas. Evocamos um eterno desdém a tudo qual nos é ditado, em rejeição apática e ódio perpétuo”.
Martioro: O Christophobia nasceu em meados de 2013, em Arapongas, cidade do norte do Paraná. Mas pra falar de Christophobia, inevitavelmente precisamos falar de Nephilim Horde e de Antiqua Morbus.
O Christophobia vem como uma continuidade da expressão por meio do black metal do trabalho que o Renato Nascimento e seu irmão, Diogo - exímio baixista e vocalista - vinham fazendo com o Nephilim Horde, que tinha a estética alinhada com o raw black metal. Disso nasce o Antiqua Morbus, e é aí que eu entro nessa história toda, quando nos reunimos pra montar um projeto de black metal que fosse mais limpo, mais melódico e que abordasse a mitologia suméria como tema central das letras.
Antiqua Morbus não vinga, e então o Renato apresenta a ideia de uma banda que resgata a estética das bandas primordiais do black metal, antes mesmo da segunda onda de bandas norueguesas. E aqui, as influências moldam o som da primeira demo, com composições que o Renato trouxe enquanto o Christophobia era apenas um projeto embrionário. A partir daí a primeira formação da banda é consolidada comigo na guitarra, Diogo no baixo, Renato nos vocais e Tiago Fantin na bateria. Depois a banda passa por algumas mudanças de formação, novas composições, novos registros, até chegarmos aqui, com a mais sólida e experiente formação possível. O que trazemos como espinha dorsal do Christophobia é o ódio como ferramenta, é a contestação e a inquietude, aliadas aos temas mais horríveis e demasiadamente humanos da nossa existência.
Renato: O Martioro e o Vini trouxeram todos os pontos que eu ressaltaria a respeito do Christohobia, desde seu surgimento até aqui. O adendo que eu deixo é que essa formação é incrível, e o propósito é expandir a rede de contatos e parcerias da banda. Quanto mais pessoas que gostam de música ouvirem nosso disco e/ou assistirem nossas apresentações, mais possibilidades se abrem para tocarmos em lugares novos e compartilhar nossa obscura arte.


3. Sobre o material mais recente, o álbum XIII — título que faz referência aos treze anos de banda  são 11 faixas potentes do início ao fim. Como foi o processo de composição e produção do álbum?

Vini: O álbum aborda temas sensíveis a todos os integrantes. Foi um processo intenso de catarse, que resultou em uma sonoridade crua, quase vomitada direto para as faixas. Da composição das letras à estruturação dos instrumentais, tudo leva um pedaço de nós, e reflete dor, ódio, revolta, solidão, dependência e autodestruição.
Martioro: Vini foi sucinto, expressou muito bem. Foi um processo catártico mesmo, incrivelmente rápido, e que conseguiu traduzir em forma e conteúdo muito do que sentimos e passamos em nossas caminhadas. E é a primeira vez que as composições saem do eixo em que o Renato e eu éramos mais ativos. Aqui o Vini entra e traz muitas referências legais, composições ímpares e execuções primorosas. Isso tudo faz com que o XIII soe como soa.
Renato: O Vini trouxe excelentes composições e novos ares para a banda, sem dúvida! Uma coisa que ajudou muito foi esse trabalho em equipe, as três cabeças trazendo ideias, além dos anos de estrada serem de suma importância e ressoam na maturidade do disco.

4. No cenário do Black Metal sabemos como é difícil ter qualquer visibilidade, ainda que exista uma cena sólida, muitos fãs esperam sempre o "mais do mesmo" das bandas. Como tem sido a receptividade da cena?

Vini: O Christophobia nunca se prendeu a clichês do gênero, sempre trouxe as influências mais diversas. O Renato e o Martioro são grandes compositores, e passei minha adolescência ouvindo a banda. Este disco veio para consolidar estes 13 anos de experiência e influências acumuladas, com uma adição das minhas próprias, e o que temos ouvido da cena confirma isso – um amálgama, uma quimera, que goste-se ou não, é original e genuíno.
Martioro: Essa pergunta é ótima. O que vejo são muitas bandas, e algumas incrivelmente boas em termos de performance, execução, timbres. Mas no aspecto de composição, muitas bandas me soam familiares a outras, e isso não é uma crítica, mas um apontamento pra uma escolha estética que essas bandas fazem, e tudo bem com isso. O Christophobia já nasce sem vocais viscerais, nasce da influência do punk, da simplicidade e do não virtuosismo presentes na cena regional quando a banda se forma. É, literalmente, um nadar contra a corrente desde os primórdios. Mas nisso tudo, me lembro de uma das muitas vezes que subimos ao palco do lendário Tribo’s Bar, em Maringá, e um grande amigo e influência em minha vida musical, o Gilson do Holder, me disse algo como “Cara, podem dizer o que for de vocês, mas não podem dizer que vocês não são vocês. Vocês soam únicos”. E isso, por mais pequeno que possa parecer, me trouxe uma sensação de dever cumprido. Porque o que fazemos é real, orgânico e leal a nós mesmos antes de qualquer coisa.
Renato: O João citou uma coisa que valorizo e sempre me trouxe orgulho, que é sermos nós mesmos e ter esse reconhecimento por parte de amigos e do público. A receptividade é boa, principalmente agora que temos três vocais em nossas performances. São vocais pesados, que somam muito ao nosso som, que é bem ríspido e direto.


5. Vocês tocam ao vivo, realizando shows pela região, e assim tem um contato mais próximo com o público e também com outras bandas. Como é a relação de vocês com as bandas da cena?

Vini: A cena de black metal local vive um momento de reerguimento e reestruturação, com novas bandas surgindo, e principalmente, novas parcerias e amizades. Hereticae, Sulphuratus, Infected Morchirium, Ecos Póstumos, Epicuro, e a recém-formada Necrolyst, compõem este cenário. Tem sido divertido fazer parte disso.
Martioro: Temos uma boa relação onde quer que passemos. Isso se dá muito por sermos quem somos em qualquer situação. A cena vive um momento incrível, vejo muitas bandas surgindo, muitas alianças sendo formadas. E saber que, de certa forma, fomos e somos influência pra galera mais jovem é bem gratificante. Buscamos sempre o acolhimento e o celebrar do underground em comunidade, com o fortalecimento mútuo entre as bandas independentes.
Renato: Temos uma relação boa com o cenário, na medida do possível, e no momento buscamos deixar diferenças de lado para buscar o crescimento do cenário black metal na região. Temos sorte de as bandas parceiras terem integrantes que se preocupam com suas ideologias, e o clima que paira no momento é fértil e amistoso.

6. Se impor no cenário é uma ação arriscada, pois corre-se o risco de ser boicotado ou sofrer o chamado 'linchamento virtual'. Vocês têm posicionamentos muito bem consolidados. Isso já trouxe alguma retaliação sobre vocês, seja com Christophobia ou outras bandas que vocês fazem parte?

Vini: Lembro-me de um exemplo caricato, de pouco antes de eu entrar na banda: tentaram (e conseguiram, de certa forma) boicotar um evento beneficente, que visava arrecadar ração para um lar de animais, porque o Christophobia iria tocar. Com outras bandas, por diversas vezes pessoas se levantaram e saíram do recinto. Mas, uma das funções da música extrema é causar incômodo, mesmo.
Martioro: Rapaaaaaz! Kkkkkkkkkk essa é boa. Já rolou boicote, já rolou, inclusive, uma espécie de abaixo assinado pra não tocarmos em um evento que tinha suporte da prefeitura de Arapongas, o Renato pode falar com mais detalhes sobre isso. Mas nossa arte é genuína, orgânica e feita para que pessoas se conectem e se vejam, de alguma forma, pertencentes nela. Então o incômodo, a raiva, o ódio ao que fazemos é esperado, e eu pego ele e faço uma bela caipirinha, que tomo antes de subir no palco e gritar “AVE LÚCIFER, AVE SATANÁS!”, como aprendi com meu consagrado do Amen Corner, o Paulista. Hahahahahaha!
Renato: Christophobia é um nome que eu escolhi pois incomoda. Tenho pavor de crente, de gente frustrada e que quer cagar seus dogmas para os outros, e é claro que há pessoas estúpidas por toda a parte, que acham que temos “medo” de Cristo por causa da “fobia” (phobia), palavra que deriva do grego “fobus”, que também pode significar “aversão”. Sempre temos que enfrentar alguma situação chata, e/ou até engraçada, pois pessoas estúpidas são a maioria, caso contrário o mundo seria um lugar maravilhoso de viver, o que não é (risos).


7. Sobre as influências da banda, nota-se a junção do Black Metal com uma cadência típica do Punk e mesmo do Thrash. O que vocês costumam ouvir; aliás, o que podem indicar também aos leitores?

Vini: Ultimamente, tenho ouvido mais DSBM do que qualquer outro gênero: Advent Sorrow, Funesto, Autodestrutivo, Clonazepam... Para além disso, ouço muito black metal (logicamente), death metal, doom metal, alternative metal, hardcore, grindcore, shoegaze, witch house, noise... a lista é longa, mas pode ser resumida em tudo o que é melancólico, sombrio ou odioso.
Martioro: O que mais expressamos é essa junção do black metal old school com o punk, o thrash metal inspirado por bandas como Exodus, Sodom, Destruction, mas também temos muitas bandas brasileiras, como Sarcófago, Vulcano, Amen Corner. É possível sentir um pouquinho de cada nome desse no que fazemos desde sempre.
Particularmente, eu ouço muito metal, especialmente black metal, death, thrash e doom. Mas uma parte grande do meu coração mora no samba-canção e na música popular brasileira, de forma geral. Aqui não falo sobre bossa, bossa é música construída com propósito comercial. Falo de samba-canção, de partido alto, de samba de morro, de Milton Nascimento e Lô Borges, de Toinho Melodia e Dona Inah, falo de Lenine e de Geraldo Azevedo, falo de Belchior e de João do Vale a Nando Reis. Falo de rap nacional anos 1990, com nomes como Facção Central, Racionais, Dexter, GOG. Enfim, são muitos os nomes que ajudaram e ajudam a moldar quem eu sou musical e artisticamente.
Meu conselho é: conheça tudo o que há de bom em profundidade, sem preconceitos com rótulos ou denominações.
Renato: Eu costumo dividir meu gosto musical pessoal, pois quando adolescente fui muito extremista e só ouvia metal extremo, com poucas exceções. Hoje escuto um pouco de tudo, e isso me abriu muitas portas para compor. Para o Christophobia a influência são bandas clássicas como Mayhem, Venom, Darkthrone, Bathory, Vulcano (do “Live”), Amen Corner, Black Sabbath, Sodom e Kreator (da fase Pleasure to Kill pra trás). Agora explicando o que quero dizer com “dividir meu gosto pessoal”, eu ouço coisas que me fazem sentir bem, dependendo do momento da minha vida. Então em casa eu posso ouvir hardcore melódico e samba com minha namorada, ou power metal, realmente o que der na telha. Mas confesso que fora do metal, sou muito fã de rock progressivo dos anos 70 (Genesis, Yes, Gentle Giant, Jethro Tull e etc.)


8. A sociedade sempre se encontrou mesclada à corrupção, degradação moral e decadência. Porém, apontar isto não é uma tarefa fácil já que as pessoas se deixaram alienar, até mesmo como um modo de dissociar-se da inexorável realidade a qual estamos inseridos. Para vocês, a música segue sendo a melhor forma de regurgitar isto e, inclusive, alertar as pessoas?

Vini: Sou partidário da disputa da hegemonia teorizada por Gramsci. Creio que o ponto de partida para uma mudança estrutural na sociedade passa, inevitavelmente, pela conquista dos corações e mentes da sociedade civil, e acredito que não somente a música, mas a arte de forma geral, é uma ferramenta indispensável neste processo.
Martioro: A arte tem o poder de explicar, por meio da percepção do indivíduo um contexto histórico, um recorte da realidade visto a partir da cognição do artista. Mas, todo coletivo parte do individual - e toda experiência individual pode ser coletiva. Muitas pessoas hão de se conectar com inúmeras expressões artísticas, e a música extrema pode sim ser uma via de expressão muito forte, senão para a transformação do meio, para a transformação do indivíduo que a consome.
Renato: A realidade é insuportável, eu gostaria muitas vezes de estar morto e não ter que viver nessa desgraça de sociedade e suas picuinhas mesquinhas. A música alivia feridas, assim como os benzodiazepínicos.

9. Como ouvinte e apreciador da música, qual é o ponto de vista de cada um de vocês em relação a música mundial? Vocês acreditam que com esse amplo acesso atual a música se tornará saturada, já que há muitas pessoas fazendo música praticamente todos os dias?

Vini: A música tem sido um produto industrial há muito tempo. Como todo produto, ela tende à padronização, algo perceptível mesmo nos subgêneros que costumavam ser resistência a isso – um processo que a dinâmica de redes de vídeos curtos acelera muito. Vemos cada vez mais bandas de metal com timbres genéricos, riffs iguais, mixagens iguais, temáticas vazias, como uma linha de produção industrial mesmo, esvaziada de seu sentido. Mas em resposta a isso, a resistência, ainda que menor, fica mais extrema, e é aí que mora a graça e a paixão da música extrema e da anti-música.
Martioro: Vini pontuou bem a mercadorização da música. Como tudo o que o capital toca e transforma em mercadoria, com a música, em especial música de contracultura do século XX e XXI, não está sendo diferente. Esse tipo de expressão, esvaziado de sentido pra dar lugar a um produto, nem costumo chamar de arte. O que existe, e não só no metal, mas no Hip-Hop, no samba de periferia, na música sertaneja que não se rende ao mainstream e às expressões riquíssimas regionais, como a seresta, o maracatu, o baião, o coco, o frevo, há muita arte genuína e muita arte poderosa em forma e conteúdo, em profundidade. A indústria pode ser forte, mas como disseram os Garotos Podres, “por mais rosas que os poderosos matem, jamais conseguirão deter a primavera”. E nós, que produzimos cultura underground, extrema, torta, temos muito prazer em trazer uma primavera de desgraça e caos, ainda que com rosas negras e putrefatas, mas que exalam poder e, de certa forma, vida na arte.
Renato: Faço das minhas palavras as mesmas do João e do Vini!


10. Quais são os próximos passos de Christophobia para 2026?

Vini: Pretendemos nos posicionar e nos estabelecer no cenário nacional, para além da cena local. Queremos tocar e ser conhecidos por novos públicos, em novas regiões. Novos materiais serão lançados, e novos shows serão feitos.
Martioro: Acredito que 2026 é o ano de divulgação do XIII, de formação de novas alianças, de muitos shows e de sairmos da nossa região pra conhecermos e levarmos nossa arte a outros novos e bons públicos.
Renato: Já estou preparando composições, há uma pronta, qual já apresentei para a banda. O objetivo, como falei anteriormente é abrir caminhos para que possamos levar nossa música mais adiante.

11. Considerações finais.

Vini: A música, para mim, nunca será mero entretenimento ou produto. Ouçam música extrema, expressem-se através dela, posicionem-se, sintam genuinamente. Agradeço imensamente o espaço para expor minhas visões e divulgar nosso trabalho. Nos vemos por aí!
Martioro: Agradeço novamente pelo espaço, Lúgubre. Aos que não tiveram a oportunidade de consumir o disco XIII, sugiro que o façam. É um trabalho ímpar, que carrega muito de nós, de nossas vivências e nossas realidades. Espero que seja tão apreciado por vocês quanto o é por nós, que o concebemos. Consumam arte feita por artistas independentes, que colocam suas expressões no mundo com genuinidade e honestidade. Há muito o que ouvir, ler, ver, tocar. Vivam e se deixem viver por meio da arte. Um abraço, e nos vemos por aí! 
Renato: Gostaria de agradecer meus parceiros de banda, que são pessoas que gosto muito, todos que nos “deram uma chance” e ouviram ou compartilharam ou mesmo que ainda não conhece mas pretendem ouvir o trabalho, e agradecer imensamente pelo espaço concedido para podermos expressar um pouquinho de quem somos e falar sobre o Christophobia. Deixo aqui aberto nossos canais nas redes sociais a todos que queiram compartilhar ideias e estabelecer alianças. Um fraternal abraço a todos e todas! 


Acompanhe Christophobia nas principais plataformas de música e nas redes sociais oficiais da banda:

sábado, 21 de junho de 2025

Ymber Autumnus - Discografia

Ymber Autumnus foi formada no estado do Rio de Janeiro em 2004 por Caronte. O músico se tornou mais conhecido por ser o membro-fundador da banda Velho, banda de Black Metal. Com Ymber Autumnus, Caronte percorreu o início da cena de DSBM no Brasil. Com uma sonoridade oriunda do Ambient Black Metal, suas letras giravam em torno da depressão, solidão, paisagens naturais e morte.

A Cavalgada do Guerreiro Morto (EP - 2005)
1. Alvorecer (Intro)
2. Lento Exílio para os Vales do Esquecimento
3. Em um Solitário dia Funeral
4. Starlit Dreams
5. Crepúsculo
6. Dunkelheir (Burzum Cover)

Duração: 29:21

Selvmord - Discografia

Selvmord foi um projeto de Depressive Suicidal Black Metal formado por Pulver na cidade de São Paulo em 2014. As letras da banda percorrem a solidão, a reclusão voluntária, o desejo de se manter afastado do convívio com as pessoas, visto que, em geral, elas são insensíveis e hipócritas.

Em junho de 2014, Loser ingressa no projeto e passa a dividir com Pulver as funções de guitarra, baixo, vocais e letras. (Além do Selvmord, Loser também integrou outros projetos como Worros, Gray Souvenirs, Loser e Invernium). Juntos, lançam alguns singles entre julho e dezembro do mesmo ano.
Links:
A-N-T-I-S-O-C-I-A-L (EP - 2014)
1. no Output 
2. Spectrum of Suicide
3. The Antisocial 
4. No One Can Live Deep in Pain...


Selvmord (Singles - 2014)
1. Autophobia
2. Dying Inside
3. Cheerful Despair

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Rope - Discografia

Rope foi uma banda de Depressive Black Metal formada por Ricardo Almeida, sob o pseudônimo Chackal, em João Pessoa, Paraíba, no ano de 2014. Suas letras abordavam a depressão, misantropia, fracassos e falhas pessoais, ideações suicidas, angústia, solidão e desilusões em relacionamentos interpessoais.
Foi lançado um EP em 2014 e um álbum em 2016. Em julho de 2018, Chackal faleceu.
Links:
ASI (EP - 2014)
1. Intro
2. 2549,77km
3. Asi
4. Isa 
5. asI (Bonus Track)

Duração: 43:28

Just Another Day (Split - 2015)
Western Fields
1. Caindo em Negatividade (feat. Chackal)
2. Seja bem-vindo, Inverno!

Rope
3. Life(less)

Duração: 35:05

Rope (2016)
1. What is it to Live
2. Agonizing in Total Stagnancy
3. Asi
4. 2549,77km
5. One Last chance at Happiness I
6. Life(less)
7. What is it to Die?

Duração: 01:18:19

Tristesse - Discografia

Tristesse foi uma banda de Depressive Black Metal formada por Martinelli nos vocais e letras e por Foedamtonmal nos instrumentos, na cidade de Curitiba, no Paraná, no ano de 2014. As letras da banda expõem a dura e pesada decepção, desapontamento e mágoa que despenca sobre qualquer pessoa após rompimentos amorosos. Esse tema, por vezes negligenciado no Metal, tem um peso muito grande dentro do DSBM, afinal, todas as relações interpessoais, sejam familiares, de amizade ou amorosas pesam muito mais sobre o emocional de quem já vive um turbilhão mental. 
Links:

Melancholia (EP - 2014)
1. Tristesse
2. Bella
3. Me Deixe Em Paz
4. Tempestade
5. Nostalgia (Nocturnal Depression Cover)

Duração: 27:32

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Unguilty - The Garden Of My Suicide [Tradução]

"Estou convivendo no meio dessa neblina
O céu está baixo, tocando o chão
Em poucos passos no meu caminho
Eu posso sentir o cheiro do bosque
Ver as cores pálidas das árvores no meio do cinza
E a corda em um de seus troncos
Talvez ali fosse meu lugar ideal

Eu me aproximo da corda
Mas, era apenas minha cabeça criando ilusão
Talvez imagens de descanso eterno
Meus olhos veem coisas que fazem minha alma chorar
Por vagar aqui nesta terra
Onde tudo está em ruínas..."

domingo, 1 de setembro de 2024

Malenuit - Gemmes de nuit [Tradução]

 "Nada, nada além de tristes luzes de néon

cintilando na escuridão,

Testemunhas da falta de brilho

que vivemos a cada noite,

Sigo em frente, tentando enxergar,

na verdade, estou perdida,

quando luto pelas razões erradas,

acabando por te abraçar. 


Esses momentos efêmeros,

nós os esqueceremos,

e esses dias inquietos

eventualmente diminuirão. 


Somos parecidos (à noite)

e ainda assim você me deixa

com esse gosto amargo

e o cheiro do medo.

Quando estou sozinha,

engolindo minhas fraquezas,

ó brisa do mar,

leve meu coração para longe de você. 


Nada, nada além de tristes luzes de néon

cintilando na escuridão,

Testemunhas da falta de brilho

que vivemos a cada noite,

Sigo em frente, tento, saio,

na verdade, estou perdida,

quando luto pelas razões erradas,

acabando por te abraçar. 


Esses momentos efêmeros,

nós os esqueceremos,

E esses dias inquietos,

eventualmente se acalmarão. 


Leve meu coração embora

E não resista mais

A esses reencontros vazios 

E esses momentos perdidos. 


Estou afundando lentamente,

muito perto de sua costa,

Mas não há nada que eu possa fazer, eu falho

e (nada é) ideal. 


Nada, nada além de tristes luzes de neon

cintilando na escuridão,

Testemunhas do brilho

que vivemos todas as noites

(Eu avanço em direção) à prisão,

porque muitos laços matam,

e sem querer,

você finalmente me alcançou. 


Esses momentos efêmeros,

nós os esqueceremos,

E esses dias inquietos,

eventualmente se acalmarão." 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Ofdrykkja - Mod [Tradução]

"A maioria das pessoas pode me enxergar como um ser preso sem uma gaiola externa
Mas para mim, eu sou normal e todos os demais é que são animais estranhos
Os comprimidos acariciam minha alma como um bálsamo, e sempre expurgam e me deixam distante
E quando chegar o dia que essa opção não ajudar mais, então eu espirro meu cérebro contra a parede

Então, quando você dispara com as mesmas ferramentas de antes
Todas as condições para doenças do sangue estão disponíveis
Isso também pode contribuir para o meu papel na vida chegar ao fim
Pois ontem eu percebi que não passo apenas de um ser repugnante em forma humana

Assim sendo, minha vocação aqui na vida não é pensar em tudo e nem sequer entender que sou completamente um erro
A lobotomia química é algo que, para mim, sempre ocorreu naturalmente, como sal em feridas abertas
O fato de eu ainda ter amigos continua sendo a prova da inútil norma da humanidade

Eu engulo um Alprazolam e não penso mais nisso
Assim sendo, minha vocação aqui na vida não é pensar em tudo e nem sequer entender que sou completamente um erro
A lobotomia química é algo que, para mim, sempre ocorreu naturalmente, como sal em feridas abertas
Mas, não tenho medo, provavelmente vou estar em uma maca, em breve
Outra vez..."


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Photophobia - In Oblivionem Ire [Tradução]

 "O esquecimento, ironicamente, devora minhas idéias, deixando apenas gritos nesta noite escura.

Nenhuma luz poderá parar minha sombra.

Eu vejo o desencanto do meu mundo em ruínas.

Sem vésperas para mim, apenas agulhas que machucararão os corações de meus entes queridos.

Toda a esperança despenca

A dor se tornará serena quando para todos,

Eu não passar de nada além de uma vaga lembrança

Então, eu posso libertar minha alma e fugir para onde a memória se torna esquecimento" 


sábado, 1 de junho de 2024

Lifelover - Saltvatten (Du + Jag VS. Tellus) [Tradução]

"O álcool é meu único amigo,
quando as memórias do nosso tempo juntos me assombram
A única coisa que ecoa na minha cabeça,
é como minha situação tem sido degradante
Eu constantemente me pergunto, em que momento foi que tudo deu errado?
Você me deixou sozinho,
com quarenta feridas na carne que me marcaram para o resto da vida
Além da ferida incurável em meu coração,
que ainda está aberto
Se um dia você voltar,
eu ficarei alegre em fazer o mesmo contigo,
como forma de vingança..."



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Renato Nascimento (Ecos Póstumos) - Entrevista

Renato Nascimento é um dos talentosos músicos da cena nacional que vem expressando sua dor através da música desde o início da década de 2010. Se utilizando de suas próprias experiências, também agrega vivências de outros pacientes psiquiátricos, resultando em canções que servem de escape para o sofrimento mental, mas, também, geram alento naquelas pessoas que as escutam. Tivemos o prazer de poder conversar um pouco com ele, e aqui disponibilizamos esta entrevista.

1. É comum que o interesse pela música surja a partir de nosso círculo social, na fase da infância/pré-adolescência, em meio a família e amigos. Como a música entrou em sua vida?

Renato: Saudações! Primeiramente sou muito grato por poder falar um pouco sobre mim, e acho que o trabalho que vocês desenvolvem é muito importante para perpetuar um estilo que é tão estigmatizado. A música começou muito cedo na minha vida, minha mãe era professora de violão, e cresci ouvindo discos de artistas como Rolling Stones, Pink Floyd e Raul Seixas. Logo quando completei dez anos de idade, meu pai presenteou a mim e meus irmãos com instrumentos musicais, eu acabei ficando com a bateria e me tornando baterista/vocalista, pois meus irmãos na pré-adolescência tinham dificuldade de cantar e tocar. Mais tarde estudei música e canto de maneira séria.

2. A música é, sem sombra de dúvidas, uma forma de terapia. É possível dar vazão aos sentimentos e emoções, questões cotidianas, vivências e experiências das mais diversas. No caso do DSBM, tudo é muito íntimo e pessoal, ainda, ressalto que é algo muito genuíno, e, por vezes, até difícil de expressar com palavras. Como é o seu processo de criação, composição e produção das músicas?

Renato: Esse estilo é maravilhoso, eu só acho uma droga que não podemos falar mais abertamente e usar palavras, digamos, "escancaradas" nas redes sociais da maneira que podíamos antes (ex: m*rt*, su*****o), pois na grande maioria das vezes, esses termos são usados por indivíduos atormentados para dar vazão a uma carga emotiva, e creio que essa censura não ajuda em nada quem quer se m*tar, até porque na realidade quem tenta tirar a própria vida está desesperado, e muitas vezes as redes sociais é onde a pessoa pode desabafar – seja com postagens mais diretas, poemas ou letras. Bem, deixado claro isso e respondendo à pergunta; eu componho em meus picos depressivos – a vida para mim é insuportável, sou dependente de narcóticos (benzodiazepínicos) e tenho que enfiar uma tremenda máscara na cara para enfrentar esse tortuoso dia a dia, me arrastando e resistindo a toda a dor da depressão e do vazio que me atordoa todo o tempo – então quando não consigo mais suportar, ao invés de fazer atos extremos contra mim mesmo, penso nos que amo, e é aí que surgem as canções do Ecos Póstumos. Elas saem de uma maneira quase inexplicável, eu simplesmente expulso elas de mim. Primeiro busco a melodia mais crua, faço os riffs, componho linhas de bateria (geralmente as programo apenas por comodidade mesmo, eu sei tocar bateria, como disse antes, e até gostaria de usar o som do instrumento de verdade nos sons), por último encaixo os poemas ou letras que estão "na fila de espera". Em 98% das vezes uso poemas, alguns mais de superação, outros bem obscuros e "malditos", as vezes são apenas letras comuns mesmo como o caso do trabalho mais recente, o single "Não, Ainda Não", que vai sair no Split com o Waldseel (Alemanha). 

3. Sobre a parte da composição. Há uma empatia bastante notável em suas letras, visto que há escritos sob o ponto de vista de pacientes psiquiátricos em algumas delas. Também, há letras mais recentes com um otimismo, não aquele superficial e clichê, mas algo que traga um alento ao ouvinte. Conte-nos um pouco sobre isso.

Renato: Sim, como estava dizendo na pergunta anterior, as vezes eu tento trazer esse lado mais empático, até porque eu fiquei internato em hospitais psiquiátricos algumas vezes, já fiquei agressivo, tive surtos, vi minha família sofrer, fiz meus familiares sofrerem, então eu tento mostrar que podemos, mesmo com o abismo nos jogando seu maldito olhar de volta, ter uma vida "normal", pois todo mundo que sofre de depressão, ou de certas intempéries psicológicas/psiquiátricas, quer viver, sorrir, ser feliz (falo de maneira empírica, das pessoas que conheci, e digo "certas", pois no caso de um caso grave de esquizofrenia, a pessoa simplesmente "não está nesse mundo", como é o caso da minha tia). Quando meu tio se m*t*u no quintal de minha casa, eu e meu pai o resgatamos da forca tentando salvar ele, foi por alguns minutos de descuido que ele fez isso, nós sabíamos que ele estava sentindo um vazio muito grande, estávamos cuidando e com medo que o pior acontecesse, e aconteceu. Eu também senti, e é inexplicável esse VAZIO, e imensurável! Parece que estamos parados numa fotografia antiga. Mas bem, há diversos tipos de motivos para uma pessoa findar sua existência, difícil falar assim, generalizando. Resumindo, eu não creio que ninguém queira viver chafurdando nas sombras, a menos que isso seja fruto de uma intempérie mental. 

4. Os Transtornos Mentais, a saúde mental em geral, tem tido mais visibilidade hoje em dia, isso devido aos altos índices de suicídios no mundo todo. Falar disso através da arte é um conforto para muitas pessoas, tanto para quem se expressa, quanto para aqueles que escutam. Você sente que ainda há muita ignorância, por parte da sociedade, em compreender essas questões? E, em particular, você já sofreu alguma repreensão por expressar esses temas em sua música? 

Renato: Meus familiares entendem que é algo artístico, mas são pessoas mais esclarecidas. Nós que somos de classe baixa, moramos em bairro pobre, vemos a nossa volta muita alienação e preconceito, como quando alguém fala que "isso não é coisa de Deus" ou alguma coisa nesse sentido, o que enxergo mais como ignorância do que preconceito. Não adianta esperarmos que uma sociedade como a nossa vá entender o viés artístico do DSBM, e como essa música nos traz acalento. O sistema nos quer aptos para trabalhar e servir ao seu propósito estúpido e trivial, então empanturra a sociedade com coisas estúpidas, qual as pessoas se esbaldam sem se perguntar o porquê, e está "tudo ótimo". E estão de parabéns pois fazem isso muito bem, expurgando nós, a “escória”, que muitas vezes por estarmos no limite de nosso psicológico não conseguimos cumprir com a cartilha pífia da existência no capitalismo, "acordar, trabalhar, dormir" e aos finais de semana e durante a noite assistir a alguma série idiota ou fazer um churrasco e tomar cerveja, confraternizando com pessoas sistematizadas e medíocres. 

5. O DSBM ainda pode ser considerado um subgênero bem recente. Pouco mais de 20 anos desde seu surgimento. Com um nicho bem específico de músicos e ouvintes. Como você percebe a recepção do público do Metal para com o Ecos Póstumos?

Renato: Realmente eu pude acompanhar o surgimento deste estilo, como você disse, é algo recente, e o Brasil possui artistas fenomenais desse estilo. A recepção é péssima, não considero um estilo que se enquadre no Metal, apesar de ter os dois pés chafurdados no Black Metal, não é um estilo aceito pelos headbangers. Eu toco em várias bandas, e já me apresentei com o Ecos Póstumos, atraindo um público específico, foi uma experiência muito forte, tanto para mim e os que tocaram junto, quanto pra galera que acompanhou os shows, mas isso aí rolou pois o "Escombros" - o único trabalho realmente oficial, digo, que não é uma demo ou EP, e o único que foi feito com "tudo que tem direito", em estúdio, com produção refinada, equipamentos profissionais e etc. - era "bonitinho", não era uma escara, uma cicatriz raivosa e maldita como o "Janela Para a Loucura", o que acabou atraindo mais público (o CD vendeu muito bem, o merchandising em geral). Mas foi de propósito que não apresentei nenhuma dessas composições, até porque esse disco não foi feito para ser tocado ao vivo, e nunca será, então meio que a galera achou que quando anunciei apresentações, eu iria tocar algo desse trabalho. Enfim, sei que o pessoal curtiu bastante de qualquer forma.

6. É comum que muitos músicos tenham um ponto de partida para começar a fazer música autoral, deixando de interpretar e tocar covers de artistas que apreciam. O seu lado compositor surgiu de forma solitária ou a partir da junção com outras pessoas em outras bandas autorais, e na troca de ideias com elas?

Renato: Eu sempre achei que ficar tocando covers é coisa de músico tapado, sem criatividade, ou de pessoas que fazem isso para se divertir e ganhar dinheiro, ou que são profissionais. Mas é complicado, pois na primeira banda "pra valer" que tivemos, que foi o Vlad Dracullare (que contava com o Daeroth do Warforged nas guitarras e voz), tocávamos covers apenas para complementar o repertório (ter tempo de repertório), tínhamos cinco músicas próprias (na linha do Emperor, mas com influências de Death – a banda, Enthroned, Behemoth e Dimmu Borgir, antigo), e tocávamos covers dessas bandas citadas em parênteses. Já tive banda tributo ao Iron Maiden, na qual toquei guitarra, posteriormente bateria e voltei para a guitarra, mas foi uma época a qual eu estava com muita depressão, então nem sei por que diabos fui tocar com banda cover/tributo ou que seja. Mas quando falo dos músicos "tapados" digo dessas bandas horríveis, de caras "das antigas" que ficam tocando esses clássicos pastiche do Rock, ou do Metal, e ainda acham que estão "detonando", quando na verdade só estão dando o que os porcos gostam, pois para mim, galera que frequenta shows de bandas que ficam tocando esses covers não tem intelecto o suficiente para absorver algo novo. Mas bem, existem exceções, como a banda Purgatory Inc. de Londrina/PR, que toca covers incríveis e que você normalmente não vê ninguém tocando (e mesmo eles já estão partindo para o autoral). Então resumindo, pessoalmente, criar sempre foi a primeira opção, ter uma banda, criar um nome, fazer músicas. Espero que quem toca covers não se irrite, é apenas uma opinião, não tenho a intenção de ofender ninguém especificamente. 

7. Sobre suas outras bandas. Fale-nos sobre elas e quais caminhos sonoros percorrem.

Renato: Meu trabalho profissional é voltado a banda Ansiah, de Crossover. Toco esse estilo pois encontrei uma baita liberdade para compor trabalhando nessa linha de som. Eu uso o Hardcore como base e posso adicionar elementos de Punk, Thrash, Death, Doom e até Black Metal no som, e ainda passar a ideologia de inconformismo social e ideias antifascistas. O Christophobia (que segue meio "capenga" até hoje) surgiu das cinzas do Nephilim Horde. Quando o Vlad Dracullare acabou, eu e meu irmão, o Diogo Nascimento (baixo, voz), pegou a guitarra e demos continuidade a nossa primeira banda, que foi junto com minha irmã, a Fernanda Nascimento (que tocava guitarra) – ela seguiu só curtindo o som, e eu e o Diogo, que passou para a guitarra, chamamos um amigo para o baixo. A banda ensaiava cinco vezes por semana, eu era o vocalista principal e baterista. Uma pena o disco (Failure o nome) ser tão tosco e mal produzido, a banda era excelente. Eu tive um projeto que lançou uma demo de três sons, que algumas pessoas ainda se lembram, o Forgotten Heaven (que era na linha já DSBM), mas o Nephilim era mais sério, para a sonoridade bebíamos de fontes como Darkthrone, Maniac Butcher, Mayhem e Burzum (a gente não sabia muito sobre o tal do Varg, e na época nem tínhamos acesso à internet, sabíamos que o cara tinha mat*do o colega de banda e queimava igrejas), e só queríamos tocar um Black Metal cru e bem tocado, sem logotipo, nem nada, só "descer o braço" mesmo. Mais tarde fui dar aulas de música, e trabalhar em um estúdio (que fazia gravações simples e também alugávamos para ensaios) fiquei internado, passei por intempéries mentais, e fui melhorando – foi em 2012 que resolvi começar com o Ecos Póstumos inclusive, no meio do caos dos meus transtornos. Depois montei o Escasso (já em 2020), após o disco "Árias Malditas" do Christophobia "flopar" (inclusive nesse disco há uma canção que seria usada para o Ecos Póstumos, "A Serpente e o Abismo"), e lancei um EP chamado "Ballads to the Fallen", influenciado por Motörhead, Tank, Celtic Frost, Venom e Darkthrone. Esse trabalho está ao dispor nas plataformas de streaming, e, o segundo EP, um pouco mais técnico, logo vai ser lançado pela gravadora Rotthenness de Bauru/SP. Há influências aqui e acolá de Slayer e King Diamond também. Enfim, devo ter mais uns duzentos projetos, mas nada que interesse ao público que ouve Black Metal e suas vertentes. 

8. A cena nacional vem ganhando um número significante de bandas e projetos, no intuito das pessoas poderem expressar suas mais dolorosas emoções. Você tem alguma dica, alguma mensagem, para deixar a essas pessoas que estão iniciando na cena?

Renato: Vejo muitas bandas maravilhosas, o que eu gostaria de dizer é: se expressem, façam terapia, fiquem vivos! A morte nos é certa, que vocês encontrem alguma luz e sejam felizes. Resistam! A arte, a música, o DSBM pode ajudar certas feridas a cicatrizarem.

9. Nesse tipo de música não é comum apresentações ao vivo, mas o Ecos Póstumos já o fez. Como foi a experiência, e há possibilidade de ocorrer novamente para além da região em que você reside?

Renato: Bem, como eu disse um pouco acima, eu não tenho interesse em tocar aqui; eu sou "cancelado". Eu tive surtos, e vários IDIOTAS que diziam ler minhas letras falando sobre surtos psicóticos violentos, deviam pensar que era brincadeirinha. Claro que o tempo mostrou que não sou violento, nem agressor de mulheres, nem que sou violento com familiares, mas para essas "panelinhas" que giram por aqui na região de "Black Metal", eu quero é distância, rsrs. Se apresentar foi muito bom sim, mas acho que não tenho muita paciência. Eu sou uma pessoa que tem um pensamento político voltado para a esquerda, me considero antifascista, apoio movimentos feministas, a luta de classes, mas vejo que muitas das pessoas que "pensam como eu" aqui estão mais preocupados em arranjar confusão, e ficar de picuinhas no cenário do que terem coragem para resolver qualquer conflito pessoalmente. Resumindo: há muita gente boa, mas o número de bobões acomunados em panelinhas se sobressai DE LONGE, então eu quero ficar bem longe dos "blackbangers" aqui da região. Legal o trabalho deles, mas que fiquem BEM longe de mim, e que vivamos em paz.  

10. Você tem lançado singles recentemente. O mais recente, intitulado 'Não, Ainda Não', faz parte de um SPLIT com a banda alemã Waldseel. O que você pode nos falar sobre este lançamento e sobre os planos futuros para sua banda?

Renato: Faz tempo que quero lançar algo com o Dyret Waldseel, criador do Waldseel, somos bem amigos, nos conhecemos quando ele lançou a primeira demo do Nephilim, "Black Metal Blood" (2010) na Europa. Essa música, juntamente com as outras três que entrarão no Split eram pra ter saído na demo "S", mas foi na época que me "cancelaram", pois tive um surto e falaram que eu b*tia em mulher, a minha namorada na época tentou me segurar, e uma garota bêbada lá no fundo gritou que eu estava "agredindo ela", obviamente que isso não ocorreu, mas ninguém quis saber. Essa moça me ajudou muito nos transtornos mentais que tive, devo muito a ela! Ela também enfrentou transtornos, e inclusive tentou me m*tar algumas vezes; nos separamos, mas infelizmente ela ainda não procurou terapia, e ficou insustentável a violência dela, pois eu apanhei muito dela. E olha a ironia aí, o "agressor" sou eu. Uma pessoa com transtornos mentais fica violenta, eu vi muito isso nos hospitais psiquiátricos que fiquei, será que essa galera aqui da região tem estrume na cabeça? Claro que não vou expor mais detalhes, mas eu aguentei a violência pois não é algo dela, ela perde o controle, é uma pessoa sofrida. Sobre o futuro para a banda, o projeto é lançar um disco "bonitinho" como o Escombros e seguir a diante fazendo música "quando der na telha", hehe.

11. Considerações finais.

Renato: Tenho que agradecer demais a todos da página DSBM Images e das demais páginas moderadas por vocês, e só digo uma coisa: FIQUEM VIVOS, a morte é certa e chega logo, então tentem viver bons momentos. Muito obrigado a quem chegou até aqui. Talvez meu trabalho não seja tão interessante, mas sou muito grato a todos que curtem o Ecos Póstumos. Um abração! E eu queria agradecer demais ao meu amigo Yuri Padial, que vai cuidar da parte da arte da banda e sempre me apoiou incondicionalmente. Procurem o trabalho da Infernal Arts, o Yuri faz capaz perfeitas para o estilo, logos, e tudo a um preço incrível! Ele é um cara ímpar!

(Entrevista realizada pela página DSBM - Depressive Suicidal Black Metal Brazil.)

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Você pode encontrar todos os lançamentos e mais informações de Ecos Póstumos nos seguintes links:

Bandcamp

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Youtube (perfil II) 

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Estamos de volta!

Após um longo hiato causado pela pandemia e pelas mudanças em nossas vidas pós-pandemia, o blog Discografias do Metal Negro está oficialmente de volta à ativa. Agora, com um novo formato mais focado em texto, porém, continuaremos a disponibilizar discografias, pois esse sempre foi o foco do site, porém com uma frequência bem menor. Para o ano de 2024, pretendo atualizar as discografias e biografias já postadas aqui e publicar algumas entrevistas. A partir do ano que vem, traremos conteúdo inédito para o blog. Espero que compreendam que minha vida mudou completamente nos últimos anos, e cuido do site praticamente sozinho, contando com a ajuda pontual de alguns amigos. Por esse motivo, teremos uma frequência bem reduzida de posts.


Para aqueles que apreciam DSBM, especialmente a cena nacional, deixo aqui os links para o coletivo DSBM Brazil, que é encabeçado por mim e pelo Lúgubre (Depressedy, Autodestrutivo, DSBMemes). Nos vemos por aí e muito obrigado aos amigos que ainda acompanham nosso trabalho.

DSBM Brazil

domingo, 29 de novembro de 2020

Kanashimi - Discografia

Kanashimi é uma banda fundada em Shizouka, Japão em 2007. A banda é um projeto solo de O. Misanthropy que criou Kanashimi após o fim da banda 彷徨 (Samayoi). Ambas as bandas foram as percussoras do DSBM no Japão. Kanashimi é uma palavra japonesa que significa tristeza. Suas canções abordam o suicídio, depressão, tristeza, desesperança, dor e sofrimento, decepções com a vida e o fim trágico no rompimento de relacionamentos. A sonoridade mescla Black Metal com elementos fúnebres do Doom Metal.

Em 2007 é gravada a demo Life. As duas faixas são carregadas de melancolia devido as diferentes melodias de teclado usadas. Cutting My Heart e a canção que dá título a demo, são preenchidas com teclados e guitarras que criam uma atmosfera densa, como se estivessem arrastando as lágrimas de Misanthropy lentamente. A primeira fala sobre as decepções da vida e o quanto elas laceram a mente e, por consequência, geram uma dor quase insuportável de se carregar. Life fala sobre a existência vazia, onde tudo perde o brilho, nada faz qualquer sentido e a pessoa atravessa seus dias como um morto-vivo.

Em junho de 2009 é lançado o primeiro álbum, Romantik Suicide, pelo selo musical Nekrokult Nihilism. Contendo 6 músicas, o álbum traz uma maior concentração nos teclados do que nas guitarras distorcidas e baterias agressivas. Misanthropy cria uma atmosfera muito fria e depressiva, seus vocais soam extremamente dolorosos e repleto de lamúrias, a agonia e tristeza são muito palpáveis ao ouvinte. Ele usa todo seus sentimentos para gritar verdadeiramente e tragicamente. Apesar das guitarras e vocais terem um som distorcido, a música é clara o suficiente para que a bateria e linhas de baixo, bem como o piano ao fundo, possam ser ouvidos. As guitarras soam com riffs característicos do Doom, mas o instrumento que mais reflete a melancolia, sem dúvidas, é o teclado. A angústia e a dor são empilhadas densamente nas canções, as melodias do piano penetram marcando o clímax. As paisagens sonoras realmente captam a imaginação do ouvinte, enquanto perambulam pela estrada das almas perdidas que se suicidaram com a quebra de uma relação desesperada. Este disco, tido para ser um conto romântico, é definitivamente isso. O material baseado em piano é uma excursão maravilhosa para o ouvinte mergulhar na mente de alguém que, como Romeu & Julieta, está profundamente apaixonado e preparado para abandonar tudo em benefício de seu relacionamento, seu parceiro e, finalmente, eles mesmos. Ao contrário de muitas bandas que tentam tratar das decepções amorosas de maneira clichê, aqui, Misanthropy traz à tona toda a dor e melancolia por detrás do suicídio, das perdas e rompimentos trágicos que podem ocorrer na vida de qualquer pessoa.

Em 2010 é lançado o EP In My Tears, pela East Chaos Records. Este EP traz a regravação de Life, da demo de mesmo nome. Há apenas uma mudança na qualidade mas não alterando nada da música em si. A primeira faixa é a que dá título ao EP e, de fato, tem por objetivo expressar o pranto de Misanthropy. A angústia e a dor se acumulam densamente na canção, a melodia do piano é inserida através dos sons da música como se soasse desesperançado, gerando mais sentimentos de tristeza e dor à ela. O vocais de Misanthropy parecem uivantes como se, o vento através de riffs ásperos e lentos envolvidos em uma melancolia sombria, o tomassem. O clima é sombrio e cheio de dor sem qualquer chance de alívio. Algos é uma bela canção instrumental. Um triste piano soando lindamente melancólico envolve esta canção do início ao fim.

Em 2012 é lançado o split 光と闇 (Hikari to Yami) com a banda Infernal Necromancy, pela Zero Dimensional Records. Contendo 4 músicas, das quais uma intro e uma instrumental, Misanthropy segue com as características já marcantes de seus vocais carregados de dor e sofrimento e instrumental com teclados e guitarras criando um paredão lento que se encaixam perfeitamente às letras de lamúrias e desperança com o amanhã.

Em 2014 é lançado outro split, The Great Depression II com a banda Happy Days. 葬歌: The Funeral Song é a primeira faixa e, como sugere o nome, é realmente uma canção digna de funeral. Sorrow Memories se inicia com um único acorde de piano que abre para os outros instrumentos e vocais entrarem. A letra fala de memórias dolorosas que nós todos carregamos e que parecem navalhas afiadas lacerando nossa mente. Woe é uma canção curta com um piano mais ritmado, expressando certa pressa. Em seguida começa a Fragile Hope. Esta se incia com uma guitarra dissonante em contraste com alguns acordes de piano que logo se mesclam ao baixo e bateria, juntamente, com os vocais angustiantes de Misanthropy.

Em 2017 é lançado o álbum Inori pela Pest Productions. Contendo 6 faixas que trazem as características já marcantes dos trabalhos anteriores de Kanashimi. A música In My Tears, do EP de mesmo nome, foi regravada para este álbum. Scar of Heart fala sobre coração partido e sentimentos de angústia gerados por falsas promessas de pessoas as quais depositamos confiança. Os vocais uivantes marcantes de Misanthropy podem ser ouvidos pela música toda. Tomurai reproduz um conjunto de melancolia com melodias e riffs repetitivos mas sem tirar a beleza da canção. As guitarras tocam em sintonia com o piano. Lost My Soul tem um coro feito pelo teclado que deixa a sonoridade inicial mais rica em melancolia. A letra fala do sentimento de perda, de perder-se de si mesmo e do que se amava. Nostalgia traz uma bela e triste melodia de piano com teclados ao fundo criando, de fato, certa nostalgia. O álbum se encerra com a melancólica INOR.

O. Misanthropy foi vocalista e guitarrista da banda 彷徨 (Samayoi) desde sua formação até o encerramento da banda. Atualmente ele toca teclado na banda de black metal Ahpdegma.


Biografia Criada Pela Pagina DSBM Images / Blog Depressedy DSBM.

Life (Demo 2007)
1. Cutting My Heart
2. Life

Duração: 13:11

Romantik Suicide (2009)
1. Romantik Suicide
2. Kanashimi no Rensa
3. Eien ni...
4. For a Suicide
5. Zetsubou no Namida
6. Romantik Suicide: Part II

Duração: 29:32

In My Tears (EP 2010)
1. In My Tears
2. Algos
3. Life (In My Tears Version)

Duração: 20:16

Happy Days & Kanashimi - The Great Depression II (Split 2014)
Kanashimi:
1. 葬歌: The Funeral Song
2. Sorrow Memories
3. Woe
4. Fragile Hope

Happy Days:
5. Guilty
6. Mental Collapse (In Stellar Sphere Misery)
7. Hallowed By Lunacy
8. Swan Song Decadence
9. Life Goes On...

Duração: 45:55

Inori (2017)
 1. Scar of Heart
2. Tomurai
3. Lost Soul
4. In My Tears
5. Nostalgia
6. Inori

Duração: 37:25